top of page

Quando tudo sai do lugar a gente também precisa sair

  • Foto do escritor: Rafaela Cortez
    Rafaela Cortez
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Tem semanas que não acontecem como planejado… agenda muda, imprevistos acontecem, coisas saem do lugar o tempo todo, até que de repente, a semana que organizamos já não existe mais. No lugar dela, existe uma outra, feita de imprevistos que não escolhemos, e que ainda assim precisa ser vivida.


O que chama a atenção nesses momentos, é que a primeira sensação que aparece não costuma ser de adaptação, é de fracasso. Mesmo quando sabemos racionalmente que não é isso, mesmo quando sabemos que as semanas se desorganizam simplesmente porque a vida não é estática… ainda assim, a culpa costuma chegar antes da lógica.


Existe um conceito que chamamos de “tirania do deveria”, que nada mais é do que um conjunto de exigências internas construídas em torno de uma imagem idealizada que temos de quem deveríamos ser (sempre competente, sempre no controle, sempre dando conta…). E essa tirania não negocia com a realidade. Na verdade, ela exige que a realidade se adapte à ela, e quando isso não acontece com a vida saindo do roteiro, o que deveria ser lido como “as circunstancias mudaram”, é lido no automático como “não dei conta”.


Na psicologia, chamamos isso de “rigidez cognitiva”, que é o extremo oposto da flexibilidade psicológica, e a grande responsável pela nossa dificuldade de atualizar nossas expectativas diante de uma nova informação, o que faz com que a gente continue usando exatamente a mesma régua, depois que o cenário que ela media já não existe mais. Flexibilidade por outro lado, não é sinônimo de relaxamento ou de baixa exigência, é a capacidade de reavaliar o padrão a partir do contexto real, e não do contexto ideal.


E é aqui que entra um ponto que gera muita confusão: a diferença entre errar e ajustar. Errar é fazer algo que não deveria ter sido feito daquele jeito. Ajustar é reconhecer que o plano original não cabe mais na realidade atual e mudar a rota. São processos psicologicamente muito diferentes, mas diante da autocobrança, costumam ser tratados como se fossem a mesma coisa, e é exatamente por isso que o ajuste dói tanto quanto o erro (e às vezes até mais), porque ajustar exige um movimento interno específico:

admitir que não será possível dar conta de tudo mesmo quando isso é bem menos do que gostaríamos de admitir

Quem vive de autocobrança, tem uma dificuldade particular com essa admissão. Não porque não saiba que é humano, que aconteceria com qualquer pessoa, que a vida é imprevisível, mas porque a autocobrança nasce, muitas vezes, para evitar o medo de descobrir que, no fim, não vamos dar conta. É uma tentativa de controlar antecipadamente aquilo que mais tememos confirmar sobre nós mesmos.


Talvez por isso o ajuste seja tão evitado. Ajustar a régua, é de certa forma, um pequeno luto. É desistir da versão da semana, do projeto, de si mesmo, que tinha em mente e aceitar a versão possível, que quase sempre é menos organizada, menos produtiva, menos “no controle” do que a que se queria entregar. E abrir mão dessa versão idealizada, mexe com algo mais profundo do que organização de agenda:

mexe com a forma que sustentamos nossa própria sensação de valor

Portanto, a pergunta que mais valha a pena ser feita nesses momentos não deveria ser “como damos conta de tudo, mesmo quando tudo saiu do lugar?”, mas sim: “o que precisamos deixar de exigir de nós mesmas, para conseguir nos adaptar ao que está acontecendo?”.

 
 
 

Comentários


bottom of page