Por que conseguir o que você queria nem sempre traz satisfação?
- Rafaela Cortez

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Tem fases em que a vida vai ficando organizada em torno do que ainda não aconteceu...
Você espera uma resposta, uma viagem, uma mudança, o fim de um período difícil, uma conquista profissional. E, sem perceber, começa a viver como se uma parte importante do seu bem-estar estivesse sempre alguns passos à frente. Como se, quando aquilo finalmente chegasse, você também fosse se sentir mais tranquila, satisfeita ou descansada.
O problema é que acontecimentos concretos e estados emocionais não têm essa relação tão direta. Você pode conseguir o que queria e continuar cansada. Pode chegar na viagem e ainda estar ansiosa. Pode resolver um problema e, depois do alívio, sentir um vazio estranho. Pode passar meses esperando uma fase acabar e descobrir que não sabe muito bem o que fazer quando ela acaba.
Isso não significa necessariamente que você queria a coisa errada. Muitas vezes significa apenas que uma parte importante da experiência estava na antecipação. Imaginar, planejar e esperar também pode ser estimulante, afinal, enquanto algo ainda está por vir, existem possibilidades abertas, cenários sendo construídos e uma sensação de direção.
Quando aquilo acontece, a possibilidade vira realidade, e cá entre nós a realidade quase nunca é tão contínua, intensa ou organizada quanto aquilo que a cabeça conseguiu imaginar. É daí que pode vir aquela sensação de “era só isso?”.
É por isso que a experiência da ansiedade e do tédio podem aparecer tão próximos um do outro...
A ansiedade mantém a atenção voltada para o que ainda precisa ser resolvido, prevenido ou alcançado. Enquanto existe uma preocupação ativa, existe também uma tarefa mental: pensar, prever, revisar, se preparar. Isso é desgastante, mas ocupa um espaço mental muito significativo.
Quando a situação se resolve, esse espaço não é automaticamente preenchido por tranquilidade. É aí que, às vezes aparece tédio, não por falta absoluta de coisas para fazer, mas pela dificuldade de se envolver com aquilo que está disponível agora.
Depois de muito tempo funcionando em antecipação, o presente pode parecer pouco estimulante.
E aí é fácil criar um novo ciclo: assim que uma espera termina, outra começa. Você resolve uma questão e imediatamente encontra a próxima. Volta de uma viagem e já pensa na próxima pausa. Conquista algo e, antes mesmo de perceber o que aquilo significou, já está comparando com o que ainda falta. Não porque seja errado ter novos objetivos, mas porque seguir em movimento também pode funcionar como evitação.
Enquanto existe alguma coisa para resolver, existe menos espaço para perceber cansaço, frustração, solidão, insegurança, insatisfação ou simplesmente o desconforto de não saber o que fazer com um tempo que não está preenchido. A urgência organiza, a antecipação distrai, a próxima meta dá uma direção... e quando tudo isso diminui, sentimentos que estavam em segundo plano podem aparecer com mais clareza.
Por isso, descansar não é apenas “não fazer nada”.
Para muita gente, descanso exige tolerar a ausência de urgência e não transformar imediatamente o espaço livre em produtividade, entretenimento ou planejamento.
Nesse processo devemos nos atentar sempre para quando o futuro começa a receber uma função emocional grande demais: a viagem que deveria compensar meses de exaustão, o novo trabalho que deveria resolver a insegurança, o fim de semana que deveria reparar uma semana inteira vivida no limite. Nenhuma conquista isolada consegue sustentar tudo isso.
Isso não significa que você deva parar de criar expectativas, fazer planos ou desejar mudanças, afinal, o problema não está em olhar para frente, está em viver de um jeito em que o presente se transforma apenas no intervalo entre uma coisa importante e outra.
Quando quase toda a satisfação fica depositada no “depois”, a vida cotidiana começa a parecer uma espécie de sala de espera.
Nem todo momento da vida vai ser intenso, produtivo ou especialmente interessante. E parte de viver de um jeito menos ansioso pode estar justamente em aumentar a capacidade de permanecer também nesses momentos: quando nada extraordinário está acontecendo e o presente não oferece uma promessa, oferece apenas o que está aqui.




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