top of page

Estamos programados para a sobrevivência, não para a felicidade

  • Foto do escritor: Rafaela Cortez
    Rafaela Cortez
  • há 8 horas
  • 2 min de leitura

Existe uma expectativa bastante comum de que uma vida emocional saudável deveria ser, na maior parte do tempo, leve, tranquila e feliz.


Por isso, quando ansiedade, medo, frustração ou preocupação aparecem, é fácil interpretar essas emoções como sinais de que alguma coisa está errada. Só que nosso funcionamento psicológico não foi organizado para manter nosso bem-estar de forma constante. Ele foi moldado, antes de tudo, para detectar riscos, antecipar problemas e aumentar nossas chances de sobrevivência.


Do ponto de vista evolutivo, isso faz sentido. Para nossos ancestrais, perceber rapidamente uma ameaça podia ser muito mais importante do que permanecer concentrado no que estava indo bem. Esse sistema continua ativo hoje, mesmo que as ameaças tenham mudado. Em vez de um perigo físico imediato, podemos reagir a uma crítica, uma mensagem sem resposta, uma reunião importante, uma decisão difícil ou à possibilidade de decepcionar alguém. Nosso organismo responde ao que interpreta como ameaça, ainda que racionalmente saibamos que não estamos em perigo.


Isso ajuda a entender por que emoções desagradáveis fazem parte de uma vida normal.

A ansiedade nos prepara para possíveis riscos, o medo direciona nossa atenção para o perigo e a frustração sinaliza que algo importante não aconteceu como esperávamos. O problema começa quando passamos a tratar qualquer desconforto como algo que precisa desaparecer.


Nesse momento, além de sentir a emoção, começamos a sofrer também por estar sentindo.

Na psicologia, essa tentativa constante de eliminar experiências internas pode se tornar um problema, porque muitas estratégias de alívio funcionam apenas no curto prazo. Evitar uma situação, buscar garantias ou tentar controlar pensamentos pode reduzir o desconforto por alguns minutos, mas também pode fortalecer a ideia de que aquela emoção era insuportável e precisava ser evitada.

Aos poucos nossa vida pode começar a se organizar mais em torno de não sentir do que de viver

Entender que estamos programados para a sobrevivência muda também a forma como pensamos a felicidade…


Se nosso cérebro tende espontaneamente a detectar ameaças, antecipar problemas e manter atenção no que pode dar errado, sentir bem-estar de forma mais consistente muitas vezes exige alguma participação ativa da nossa parte. Isso pode envolver criar espaço para experiências agradáveis, cultivar vínculos, descansar, estar presente no que está acontecendo e direcionar atenção também para aquilo que está funcionando. Não porque felicidade seja uma tarefa ou uma obrigação, mas porque ela não é necessariamente o estado para o qual nosso organismo vai nos conduzir sozinho.


Isso também significa que felicidade não pode ser entendida como um estado que deveríamos conseguir manter o tempo inteiro. Uma vida satisfatória ainda inclui ansiedade, tristeza, medo, raiva e frustração, especialmente quando algo importante está em jogo. O esforço está menos em tentar permanecer feliz o tempo todo e mais em construir condições para que prazer, conexão, interesse e satisfação também tenham espaço em uma mente que, por padrão, tende a priorizar proteção.


 
 
 

Comentários


bottom of page