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As grandes decisões e as má decisões parecem exatamente iguais quando as estamos tomando

Foto do escritor: Rafaela Cortez
Rafaela Cortez
10 de ago.
3 min de leitura

Decisões não vêm com etiqueta, isso significa que não sabemos, no momento que decidimos, se estamos diante de uma virada ou de um erro.


A sensação interna, que é basicamente um misto de convicção e desconforto, é praticamente idêntica nos dois casos. Só o tempo separa uma coisa da outra, e o tempo convenhamos, não avisa com antecedência de que lado vai ficar.


Talvez seja por isso que tanta gente trata a dúvida como sinal de erro. Como se decisões certas devessem vir acompanhadas de clareza, de uma tranquilidade imediata que confirma: “sim, é isso mesmo”. Mas sabemos que não é bem assim que funciona…


A clareza costuma sempre surgir depois, porque com os resultados em mãos, nossa mente organiza uma narrativa para explicar o que aconteceu e dar coerência à escolha feita.


Enquanto a decisão está sendo tomada a única coisa que existe é incerteza só isso

Na psicologia, chamamos isso de viés de retrospectiva, que é exatamente essa tendência de olhar para trás e enxergar como óbvio aquilo que, no momento não tinha nada de óbvio.


E não para aí… não é só o resultado que parece previsível depois. No fim, o resultado também reorganiza a nossa narrativa e pode mudar até a forma como julgamos a pessoa que éramos quando tomamos aquela decisão. Quando as coisas dão errado, é fácil olhar para trás e acreditar que os sinais sempre estiveram evidentes, que deveríamos ter previsto o que aconteceria ou que só não percebemos porque fomos ingênuas.


É justamente nesse momento que aparecem dois jeitos bem diferentes de revisitar uma escolha. Um pergunta: “o que eu consigo aprender sobre a forma como decidi?”, o outro sentencia: “como eu pude ser tão ingênua?”. Enquanto o primeiro permite compreender o que sabíamos, o que ignoramos e o que podemos fazer diferente, o segundo transforma o passado em prova de incapacidade.


Isso não significa ignorar os próprios erros ou tentar justificar qualquer decisão.


Refletir sobre a maneira como escolhemos também exige reconhecer quando agimos por impulso, ignoramos informações importantes ou repetimos padrões antigos. A diferença está no que fazemos depois de perceber isso: usamos o erro para ampliar a nossa compreensão ou para nos atacar?


Porque a forma como interpretamos as escolhas passadas também interfere nas decisões que tomamos hoje. Quando cada resultado ruim se torna uma confirmação de que não sabemos escolher, passamos a desconfiar não apenas de uma decisão específica, mas da nossa própria capacidade de decidir.


E talvez seja aí que o problema fique ainda mais confuso: tanto uma decisão boa quanto uma decisão ruim podem vir acompanhadas de medo, dúvida e insegurança enquanto estão sendo tomadas. Por isso, não dá para usar apenas o que sentimos naquele momento como prova de que estamos escolhendo certo ou errado.


De alguma forma passamos a confundir segurança com acerto e desconforto com erro. Mas devemos nos lembrar que:

AS EMOÇÕES FAZEM PARTE DAS NOSSAS DECISÕES MAS NÃO PODEM SER O ÚNICO CRITÉRIO PARA TOMÁ-LAS

É nesse ponto que entra o que a psicologia chama de tolerância à ambiguidade: a capacidade de permanecer diante de uma situação que ainda não oferece respostas claras, sem precisar encerrá-la imediatamente. Quando essa tolerância é baixa, a incerteza se torna tão desconfortável que qualquer decisão parece melhor do que continuar sem saber.


Por isso, algumas pessoas decidem rápido demais, não porque a escolha amadureceu, mas porque precisam interromper a ansiedade provocada pela dúvida. Nesse caso, a sensação de alívio pode ser confundida com certeza, mesmo quando ela apenas indica que o conflito terminou.


A pergunta que fica, então, não é apenas “essa foi uma boa decisão?”, mas também: “eu decidi isso para lidar com o problema ou para parar de sentir a dúvida?”.


O grande ponto é que nem toda decisão permite responder a essa pergunta de forma tão simples.


Existe ainda um tipo de decisão em que essa pergunta nem se aplica direito, porque não tem uma alternativa completamente certa, por exemplo: ficar em um emprego pode preservar a estabilidade e ao mesmo tempo alimentar o esgotamento. Sair pode proteger a saúde e trazer insegurança. Não existe aí uma opção sem custo, existe entender quais custos conseguimos sustentar.


não é sobre eliminar a incerteza mas sim sobre aprender a decidir dentro dela

Talvez o mais honesto que se possa dizer sobre grandes decisões seja: elas exigem agir sem a garantia de estar certo. Uma decisão pode ser boa não porque veio de uma tranquilidade absoluta, mas porque foi tomada com honestidade sobre a realidade, considerando o que se sabe hoje, os riscos visíveis, os padrões que já se repetiram antes.


E se alguma coisa der errado, isso não significa que não saberemos lidar. Confiança não é acreditar que sempre vamos escolher certo, é saber que dá para rever, reparar e recomeçar.

 
 
 

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