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Por que sua cabeça insiste em se preocupar com coisas que nunca acontecem?

Foto do escritor: Rafaela Cortez
Rafaela Cortez
há 10 minutos
4 min de leitura

Pode ser que você já tenha passado pela experiência de algo acontecer (ou nem ter acontecido ainda) e sua cabeça começar a girar em um looping de pensamentos: “E se der errado?”, "E se eu não conseguir?”, “E se alguma coisa acontecer?”, “E se eu estiver esquecendo algo importante?”


Então você tenta pensar em todas as possibilidades, repete conversas que ainda nem aconteceram, imagina respostas, cria planos alternativos. Às vezes, deita para dormir, mas sua cabeça continua tentando resolver problemas que nem existem ainda.


A parte mais desafiadora é que existe uma sensação muito convincente por trás disso de que se pensarmos o suficiente agora, talvez estejamos mais preparadas para o que vier.


É por isso que simplesmente dizer para uma pessoa ansiosa que “vai dar tudo certo” costuma adiantar muito pouco, porque a questão aqui não é só acreditar que algo ruim pode acontecer. É acreditar que se preocupar ajuda a impedir que aconteça (ou, pelo menos, ajuda a estar preparada isso).


E talvez o ponto mais difícil de aceitar seja que as coisas que nos preocupam quase nunca são as que dão errado, e as que dão errado muitas vezes não tínhamos como adivinhar. Isso não significa que deveríamos ter pensado melhor, significa que existem coisas que só podem ser conhecidas quando acontecem.


A sua preocupação acerta muito menos do que parece

Existe uma coisa curiosa na ansiedade: nossa memória costuma ser péssima em registrar quantas previsões catastróficas não se realizaram.


Podemos passar uma semana inteira preocupadas com uma reunião. Imaginar que vamos congelar na hora, que vão perceber que não sabemos o suficiente, que alguém vai questionar nosso trabalho, que vamos dizer alguma coisa errada. Até que a reunião acontece e tudo corre bem...


No dia seguinte, em vez de pensar “eu passei dias preocupada com algo que nem aconteceu”, nossa cabeça simplesmente segue em frente e encontra uma nova preocupação.


Ou seja: quase não percebemos quantas vezes a ansiedade previu um problema que nunca chegou a existir.


Isso já foi estudado. Pesquisadores pediram a pessoas com Transtorno de Ansiedade Generalizada que registrassem suas preocupações durante alguns dias e, depois, verificassem quantas delas realmente tinham se concretizado. Cerca de 91% das preocupações não se realizaram. E, mesmo quando algo temido acontecia, muitas vezes o desfecho era melhor do que o imaginado ou a pessoa percebia que havia lidado com a situação melhor do que esperava.


Ainda assim, saber disso não foi o suficiente para simplesmente pararem de se preocupar, porque a preocupação não funciona apenas pela lógica. Ela também produz uma sensação de controle.


Se preocupar dá a sensação de estar fazendo alguma coisa

Esse talvez seja um dos motivos pelos quais é tão difícil abandonar a preocupação: pensar repetidamente sobre tudo o que pode dar errado é trabalhoso, e, justamente por isso, pode parecer preparação.


Enquanto pensamos, revisamos, calculamos riscos e criamos cenários, sentimos que estamos fazendo alguma coisa para evitar o perigo.


Imagine que você passe dias preocupada com uma apresentação importante. Você revisa tudo várias vezes, pensa nas perguntas que podem fazer e imagina tudo o que pode dar errado. A apresentação acontece e dá tudo certo. A partir dessa experiência, uma interpretação possível seria: “Talvez eu tenha me preocupado muito mais do que precisava". Mas uma mente mais ansiosa pode concluir que: "tudo só deu certo, porque se preocupou tanto".


E aí existe um problema: nunca conseguimos fazer o experimento paralelo. Não temos como saber como aquela apresentação teria sido se tivéssemos nos preparado adequadamente sem passar dias em estado de alerta.


Por isso, quando nada dá errado, a preocupação pode acabar recebendo o crédito. E, na próxima situação, se preocupar parece ainda mais necessário.

Planejar e se preocupar não são a mesma coisa

Isso não significa que pensar no futuro seja desnecessário. Planejar é tão importante quanto antecipar algumas dificuldades.


A diferença é que planejamento termina em uma ação possível, por exemplo: Você pensa: “E se chover no dia do evento?”. Então verifica se existe um espaço coberto e organiza um plano B. O pensamento produziu uma decisão.


A preocupação costuma funcionar de outro jeito: “E se chover? E se chover muito? E se as pessoas não conseguirem chegar? E se ficar tudo feio? E se eu me arrepender de ter escolhido esse lugar? E se…”. Em algum momento, já não existe mais uma nova ação possível, só repetição.


E se alguma coisa realmente der errado?

Porque alguma hora vai… nem tudo termina bem: planos falham, pessoas decepcionam, imprevistos acontecem, notícias ruins chegam…


O objetivo aqui não é acreditar que nada de ruim vai acontecer com você, mas sim, abandonar a ideia de que você precisa prever tudo para conseguir lidar com a vida.


Pense em algum problema realmente inesperado que já aconteceu com você. Quando ele chegou, provavelmente você precisou lidar com informações que simplesmente não existiam antes. Talvez tenha precisado conversar com alguém, mudar um plano, pedir ajuda, tomar uma decisão, esperar, chorar ou mudar de rota. E talvez tenha feito tudo isso muito longe da perfeição, mas fez.


Existe uma diferença enome entre estar preparada para tudo e confiar que você poderá lidar com o que aparecer (a primeira coisa é impossível e a segunda é uma habilidade que pode ser construída).

E talvez seja justamente aí que exista uma saída para a preocupação excessiva: não em tentar prever o futuro, mas em construir a confiança de que você pode lidar com o que acontecer, mesmo sem saber de antemão o que vem pela frente.


 
 
 

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