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O silêncio como lugar de descanso

  • Foto do escritor: Rafaela Cortez
    Rafaela Cortez
  • 20 de out. de 2025
  • 3 min de leitura


Eu vinha de uma temporada que estava sentindo um cansaço que não sabia nomear.

Não era um cansaço mental, mas ao mesmo tempo também não era uma exaustão que o descanso físico resolve.

Eu sabia que era um peso que parecia estar morando em algum lugar entre o corpo e a mente, o qual eu não conseguia identificar ao certo.


Para tentar resolver isso fui para o meu refúgio de sempre: passar uma semana na praia (meus pais tem um apartamento lá, então isso facilita o processo).

Mas não fui exatamente para descansar, porque continuei trabalhando normalmente.

Fui com a intenção de mudar o ritmo, tentar me sentir diferente.

Só que, eu não contava com o fato de que choveria todos os dias lá…


Como não dava para sair, nem se quer para caminhar na areia, acabei ficando mais tempo no apartamento, sem fazer muita coisa para além das demandas do trabalho.

Foi estranho no começo, porque em casa eu sempre encontro algo para preencher o tempo, mas lá comecei a lidar com a ausência de tarefas, com o nada para fazer, com o silêncio.


E falando em silêncio…

Parece que existe um tipo de silêncio que só é capaz de chegar depois do descanso quando o corpo finalmente para

Eu diria que talvez é o tipo de silêncio mais difícil de se fazer, porque não depende de abaixar volumes, falar mais baixo ou se isolar.

Depende de se conectar consigo mesma e com isso vem o grande desafio: quanto menos a gente ouve de fora, mais barulho surge de dentro.

E sinceramente, às vezes é mais fácil lidar com o barulho de fora.


Mas existe algo bonito nesse desconforto

porque quando o som lá de fora diminui o que sobra é o que realmente está pedindo pra ser escutado

Esse até pode ser o silêncio mais difícil de se fazer, mas ao mesmo tempo, quando a gente consegue alcançar, é o que tem mais potencial revelador.

Então foi nesse espaço, mais quieto, que comecei a perceber o que realmente estava acontecendo comigo: não era o excesso de trabalho que estava me esgotando, mas o quanto eu vinha me mantendo em alerta e distante de mim o tempo todo.

Hoje consigo reconhecer que um ônus da minha profissão, é que inevitavelmente, quando muitos pacientes estão vivendo momentos turbulentos, que as sessões ficam mais pesadas, parece que eu me desconecto mais de mim para me conectar ainda mais com eles.


E eu acredito que a vida seja assim...

as vezes a gente precisa diminuir o barulho de fora pra escutar o de dentro e as vezes a gente precisa diminuir o barulho de dentro pra escutar o de fora

Eu só sei que esse silêncio me mostrou que eu estava precisando deixar alguns espaços mais vazios na minha rotina.

Não para fugir de algo, mas pra respirar de novo, pra lembrar que entre uma fala e outra, entre um atendimento e outro, entre uma demanda e outra, ainda existe um espaço meu.


E talvez, no final das contas, esse seja o grande papel do silêncio:

Não o de afastar o mundo mas o de aproximar a gente da gente

Então agora, com muito carinho quero te perguntar genuinamente:

Quando foi a última vez que você se abriu para se ouvir?


Talvez não precise ser em uma viagem, nem se isolando por uma semana inteira.

Pode começar com cinco minutos sem som, com um banho em silêncio, com um café da manhã com o celular virado pra baixo.

Cinco minutos em que o único desafio seja lidar com o barulho dos seus próprios pensamentos

E quem sabe…

Nesse pequeno espaço de silêncio, algo dentro de você também comece a descansar.

 
 
 

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