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O próximo passo é o abismo

  • Foto do escritor: Rafaela Cortez
    Rafaela Cortez
  • 8 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Recentemente fui visitar minha irmã que mora fora do Brasil desde agosto de 2024. Foi uma viagem de 35 dias e, desde que voltei de lá, parece que algo travou em mim.


Antes de ir, minha vida estava em ordem. As rotinas faziam sentido, eu me sentia produtiva, organizada, inteira.

Mas quando voltei… eu simplesmente não consegui continuar de onde parei.


Foi como se o ritmo interno e o ritmo externo tivessem entrado em conflito.

Eu tentava retomar os hábitos antigos, mas nada fluía.

Me vi parada, me cobrando, me criticando, duvidando de mim.

Me senti falhando. Me senti pequena.


Mas aos poucos, fui percebendo que nada disso era sobre falha.

Na verdade, era sobre mudança.


Durante a viagem, me preocupei muito em viver o agora.

E isso me ajudou a lembrar que a felicidade não vem de certezas nem de garantias, mas dos momentos vividos com presença.

O passado a gente apenas lembra o futuro a gente só planeja Mas o agora… o agora a gente vive e sente em toda sua intensidade

O problema é que é fácil esquecer disso quando voltamos para a rotina e para as pressões cotidianas.

A gente se apega ao que conhece.

E esse apego, muitas vezes, não é só por medo do novo…

É também por medo de perder quem achamos que somos.


Nos apegamos a relacionamentos, trabalhos, títulos, rotinas que já não cabem mais, só porque construímos nossa identidade em torno deles.

Porque abrir mão parece perigoso.

Porque mudar parece cair.

Parece... um abismo.

E talvez seja

Minha visão de mundo amadureceu nesses 35 dias.

Mas quando voltei para a rotina, tentei me agarrar a uma versão anterior de mim mesma como se isso fosse me proteger, como se manter tudo igual fosse uma forma de retomar o controle.

POV: isso só aumentou meu desconforto.


Pensando agora friamente, parece doideira me apegar a uma versão menos madura, não é?!

Mas meus mais de 10 anos de terapia já me ensinaram: tenho uma grande tendência para a rigidez.

Tenho dificuldade de soltar.

Carrego comigo o hábito de tentar controlar o incontrolável (especialmente quando me sinto vulnerável) e às vezes, quando menos percebo, isso escapa do meu controle.


E é incrível como todas as vezes que isso acontece e me dou conta, a conclusão é sempre a mesma:

a vida não espera que a gente esteja pronta ela simplesmente muda E nos convida (ou nos força) a mudar junto

A vida raramente nos tira de um lugar com sutileza quando resistimos à mudança.

Ela começa mostrando a necessidade de sair de lá sussurrando, com pequenos sinais.

Mostrando fissuras.

Criando incômodos.

Mas se ignoramos… ela aumenta o volume.

Até que a situação se torne insustentável de tanto que te espreme.

E aí não é mais sobre escolher mudar É sobre não ter mais como ficar

Porque o custo de permanecer ali é mais alto do que se jogar no desconhecido do abismo.


Mudar exige desapego.

E desapego exige luto.


E como é difícil viver esse luto de quem fomos.

De quem gostaríamos de continuar sendo.


No final das contas, é isso que o abismo representa:

o espaço entre o que fomos e o que ainda não sabemos ser

Mas é também o único caminho possível quando ficar deixa de ser uma opção.

E talvez... só talvez...

Seja aí, no abismo, que começa a sua nova temporada.


 
 
 

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