O peso invisível de querer ser melhor do que ontem
- Rafaela Cortez

- 13 de out. de 2025
- 5 min de leitura

Pensei bastante antes de escrever esse artigo, porque sinceramente esse é um assunto tão sensível para mim, que me faz sentir vergonha admitir o que acontece (quando acontece).
Mas como psicóloga clínica, vejo que são raríssimas as experiências da nossa vida que são verdadeiramente individuais.
No final das contas todo mundo sente as mesmas coisas mas em fases diferentes da vida
Então pensei…
Por que não compartilhar essa desagradável experiência íntima, que vira e mexe faz parte da minha vida?! Talvez a gente esteja no mesmo barco, e nem saiba...
VOU contextualizar tudo para você…
Tudo começou quando percebi que em algumas fases da minha vida, onde quer que eu vá e independentemente do que e do quanto eu faça, tenho sempre uma grande companhia indesejada: a culpa.
Momentos que me trazem descanso e bem-estar simplesmente passam a gerar um desconforto tão grande que eu começo a evitá-los, porque tristemente eles começam a ser associados à ideia de “tempo perdido” diante da lista infinita de coisas que sinto que preciso produzir.
Isso significa que almoços em família, responder mensagem de amigas, momentos de conexão com pessoas importantes… tudo começa a ser visto como “roubo” do meu tempo produtivo.
Lembra que no começo desse artigo falei sobre vergonha?!
É aqui que ela aparece...
quando reconheço que marcar tarefas em uma lista e sentir que estou sendo produtiva começa a ter mais peso do que estar presente com as pessoas que eu amo
Não sei exatamente em quais momentos isso acontece, mas sei acontece!
É como se por algum motivo (por mim ainda desconhecido) eu entrasse em uma competição comigo mesma, onde preciso sempre render, produzir e ter resultados melhores do que ontem.
Como se tudo o que eu fizesse precisasse de um grande propósito, caso contrário é perda de tempo. E fica pior pensar que nos dias que não consigo cumprir com isso, a culpa toma conta de mim e as conversas internas ganham um tom extremamente agressivo.
Perceber tudo isso é sinal de que estou presa novamente em um ciclo, que vez ou outra toma conta de mim: o de querer ser sempre melhor do que ontem.
É aí que entra a...
A armadilha de querer "“ser melhor do que ontem""
Percebo que a ideia de buscar “ser melhor do que ontem” para mim, vem como uma motivação inicial, que seria inofensiva se não fosse minha habilidade surpreendente de transformar quase tudo, em uma cobrança silenciosa.
O que cá entre nós abre um caminho incrível para uma lenta autodestruição, porque começo com a ideia de querer ser melhor do que ontem, mas aos poucos começo a medir cada ação, cada escolha e até mesmo cada momento de lazer pelo critério do desempenho, pensando no que foi feito antes e no que deveria ter sido melhor.
Isso quer dizer que toda escolha precisa ser racional, que cada experiência precisa gerar algum resultado, que será comparado ao resultado anterior e no final o saldo precisa SEMPRE ser positivo. Nesse processo, o prazer desaparece e sobra apenas a sensação constante de insuficiência.
Essa busca incessante por superar a mim mesma, por ser mais produtiva...
Mais eficiente...
Mais organizada...
É o que transforma tudo em métrica e competição, mesmo quando a atividade não deveria ter objetivo nenhum além do prazer.
Dessa forma...
Ler deixa de ser sobre o quanto um livro me marcou, e passa a ser sobre quantos livros eu terminei.
Treinar só pelo prazer de me exercitar, vai perdendo espaço para metas de performance como bater pace, aumentar carga, superar o treino anterior.
A grande verdade é que quando internalizo essa lógica da sociedade da performance...
Tudo vira métrica na minha vida e parece que começa a existir um jeito “certo” de viver cada experiência
E se algo não se encaixa nesse molde, automaticamente o valor daquilo se reduz a zero.
É assim que o foco de tudo deixa de ser a experiência e o resultado passa a ocupar o lugar do prazer.
Mas com tudo isso, não quero que você ache que métricas são um problema, porque definitivamente:
Performar não é o problema
Não quero dizer que disciplina ou produtividade sejam ruins, muito pelo contrário, elas são necessárias em várias áreas da vida.
O ponto é: precisamos aprender a diferenciar os momentos em que vale performar, daqueles em que somente viver é o suficiente.
Nem tudo precisa de meta.
Nem todo lazer precisa “render” algo.
É possível entrar em uma atividade apenas pelo prazer, sem culpa, sem cobrança, sem querer melhorar.
Quando tudo passa a ser medido a gente perde a capacidade de se entregar ao simples prazer de algo sem sentir que deveria estar fazendo mais ou melhor
É justamente essa sensação que nos afasta do afeto, do descanso e de quem realmente somos.
A grande dificuldade disso tudo, é que por mais consciente que eu esteja dessa diferença, muitas vezes me pego novamente no mesmo lugar: presa ao ciclo da performance. Isso porque simplesmente...
O ciclo que se repete
Então confesso que esse não é um desafio novo para mim.
É um ciclo que, quando percebo, já está instalado de novo, de novo e de novo… Roubando minha qualidade de vida e minha capacidade de sentir prazer nas coisas mais simples e valiosas.
O que dificulta tudo, é que é exatamente dessa forma que a sociedade em um todo funciona hoje, então se torna difícil não internalizar com facilidade essa pressão de sempre render e performar, já que estamos diariamente expostas à ela.
Às vezes identifico cedo quando esse padrão está querendo voltar à tona, mas admito que em outros momentos, quando estou mais distraída, só percebo quando, infelizmente, já estou distante de tudo aquilo e de todos aqueles que eu amo.
Só sei que independentemente do momento que identifico o padrão, os sinais são sempre os mesmos:
Autocobrança constante (a sensação de que nunca fiz o suficiente)
Cultura do “faça mais” (querer sempre ultrapassar metas e me destacar, estar sempre disponível)
Positividade sem critério (acreditar que tudo é possível desde que eu me esforce mais)
Abolição da pausa (todo meu descanso vira problema e meu o lazer precisa justificar minha “utilidade”)
Quando identifico esses sinais, tento sempre recalcular a minha rota, mas a grande verdade é que não existe segredo ou fórmula pronta para isso. O que busco é diferenciar onde realmente faz sentido performar, e onde eu posso simplesmente viver.
Talvez aqui esteja o grande desafio: aprender a separar os espaços da performance e os espaços do prazer.
Espero que, com esse artigo, você consiga olhar para seus próprios momentos de lazer e se questionar: “eles ainda são meus ou já foram tomados pela culpa e pela cobrança de ser sempre melhor do que ontem?”.
Torço para que você nunca se esqueça da grandiosidade que é se permitir sentir.
Experimentar.
Errar.
Brincar.
Afinal, nem tudo precisa render.




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